1989: o ano que não terminou


Em 1989 eu tinha 9 anos de idade. Em 1989 caía o Muro de Berlin, Madonna lançava Like a Prayer, entrava em circulação no Brasil o cruzado novo e estreava no cinema Indiana Jones e a Última Cruzada. Em 1989 acontecia no Brasil a primeira eleição direta em 30 anos para presidente da república, a TV via surgir Os Simpsons e morria Salvador Dalí. Em 1989 George H. W. Bush tomava posse como o 41º presidente dos Estados Unidos, foi fundada no Tocantins a cidade de Palmas, a Globo passava Que Rei Sou Eu? e o jornalista brasileiro Zuenir Ventura lançava o livro 1968: O ano que não terminou. Em 1989 a Guerlain comemorava 100 anos de Jicky e apresentava o Samsara. E é aqui neste ponto que a gente desce. 

Falar sobre o Samsara é o mesmo que querer condensar muito num pouco. Eu tentei fazer isso aí em cima com 1989. Não deu muito certo. Acabou ficando muita coisa importante de fora. Mas como eu já fiz isso antes, vou tentar de novo, pois é pra isso que este blog serve.

A história do Samsara, contada pela marca, começa quando Jean-Paul Guerlain conhece uma amazona inglesa chamada Décia de Pauw, por quem ele se apaixona. E ele tinha um desejo: oferecer a essa mulher "um perfume que fosse capaz de revelar aquilo que ela tinha de mais íntimo, aquela sensualidade única". Como ela gostava de sândalo e jasmim, Jean-Paul seguiu por aí e fez o Samsara. Porém, tenho fortemente cá comigo que se ele fosse o Sidney Magal, ele teria feito O meu sangue ferve por você. Rá! 

Abre parênteses. Pra quem não sabe, o nome Samsara vem do sânscrito e abarca a roda da vida. Quem quiser se aprofundar nos conceitos do termo, sugiro começar por aqui. Fecha parênteses.

Pois bem, ao perfume! Samsara é um floral amadeirado de responsa. Portentosíssimo, elegantíssimo, sensualíssimo, perfumíssimo! Jasmim, ylang-ylang, sândalo, íris, fava tonka e baunilha fazem um link incrível com a historinha de amor repetida à exaustão pela Guerlain (e se existe alguma verdade naquilo nós nunca saberemos). O cheiro - que aqui me aparece bem encorpado - me fala de paixão, de intensidade, de sensualidade escancarada (tal qual Magal em O meu sangue ferve por você, néam? ok, chega de Magal!)

Enfim, sândalo doce and cremoso define. Muito sândalo! Bastante mesmo! Tenha isso em mente se quiser se jogar nesse perfume, viu? Ah, e o jasmim e o ylang-ylang também imperam. Consigo me inebriar também com a íris, que anda de mãos dadas com a baunilha, e me traz aquele talco adocicado ímpar que só a Guerlain sabe fazer. Agora imagina aí o Magal falando tudo isso e você vai ter uma noção do que é o Samsara. Tá, parei! 

Na real, tudo aquilo que eu escrevi no parágrafo anterior (desconsiderando o trecho do Magal, evidente) me diz que Samara é perfume de inverno e pede dedo leve no spray. Porque assim ele fica redondinho, quentinho, aconchegante, apaixonante, arrebatador, praticamente um casacão de veludo num dia frio!

No mais, não, ele não é datado, apesar de não se parecer nem com a sombra dos perfumes que são lançados no mercado hoje em dia. O fato é que Samsara é um clássico. E de sangue quente!

Mas, óh, atenção! A versão EDT é um pouco diferente da EDP, ok? No mais, tenho um frasco atual da primeira e uma fração vintage da segunda (acho bom avisar porque dizem que esse perfume foi reformulado). Pois bem, a saída da EDT engana; é arejada, relativamente leve, e você fica achando que o resto vai ser sem graça. Ledo engano. Logo ela bota as garrinhas de fora e mostra o que é ser Samsara. No mais, a versão EDP começa direto no coração da EDT. O resto fica igual na minha pele, tanto na formulação nova quanto na antiga (se é que alguma coisa foi alterada mesmo, além da embalagem).

Mais uma historinha pra terminar (a última! juro! e sem Magal! garanto!). Reza a lenda que quando Brian Jones, então guitarrista dos Rolling Stones, foi assistir a um show do Hendrix em Londres, em 1967, ele disse: "Isso não é guitarra, é outra coisa, muito mais louca e bonita". E, bom, quando eu conheci o Samsara, em 2014, pensei cá comigo, inspirada pelo Brian - e voltando mentalmente ao ano de 1989: isso não é perfume, é outra coisa, muito mais louca e bonita!

Comentários

  1. Só pra variar, sua resenha está fantástica! Eu, que tbém nasci em 89 e vi tais fatos que vc citou (alguns lembro brevemente, assumo) digo que perfumisticamente falando, Samsara foi uma das melhores coisas de 1989. Coisa aveludada,'caliente' (ó muso-mor Magal aqui de volta, não adianta...). Tem nome de coisa sagrada mas me lembra mesmo uma ciganisse...
    Entre lendas e 'dizem que', Brian Jones estava correto quanto ao Hendrix. E vc quanto ao Samsara.

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  2. Fragrância que deve estar eternamente nas prateleiras mundiais. Confortável como um abraço em dias invernais. Personalíssima e certeira resenha, Van.

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  3. Oi Van!
    A primeira vez que ouvi a fama do Samsara foi em 91, quando estava escolhendo um perfume (o primeiro importado que eu teria) e me indicaram o lindão aí. Só que na época, eu com 15 aninhos, me assustei um pouco. E nem sei qual versão eu senti, se o EDP ou EDT! Só sei que fiquei no Anais (tudo a ver, né?hahaha) e fiquei feliz da vida. Hoje sim, eu queria senti-lo novamente, no alto dos meus 38. Aí sim, eu curtiria à beça, tenho certeza.

    Ah, e eu me sentiria super homenageada se fizessem um perfume pra mim, já pensou? Já com "o meu sangue ferve por você" eu acharia que é bullying, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!

    Beijos pra melhor "resenhadora" de perfume que eu conheço,

    Lu

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  4. Diana, minha resenha virou o samba do Magal doido, mas tá valendo. Culpa do Samsara. Ele que fez isso comigo. Super incrível ele. rs

    Village, apesar de bombástico ele é mesmo bastante confortável, né?

    Mulher sem Photoshop, eu teria corrido pra longe se topasse com ele aos 15 também. A conversa com ele precisa ser de igual pra igual, saca? No mais, faça um favor a si mesma e prove esse dito. Vale a pena. E eu adoraria que me fizessem um cheiro. Nem imagino como seria. E tenho até medo de pensar. rs Thanks, gata!

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  5. Então Van....em 1989 eu já estava com 19 anos trabalhando no centro de São Paulo, onde havia muitas galerias que vendiam perfumes importados. Aiai, ficava maluca com o cheiro que exalava tais galerias....e eu "pobre assalariada", ficava sonhando e namorando as vitrines dos perfumes. Muitas vezes entrava nas lojas encabulada e tentava cheirar um ou outro perfume, era um sonho encantado.

    Eu lembro de ter cheirado essa belezura do "Sangue fervendo", sorry não resisti, hehehe.....era bom, muito bom! Hoje eu tenho o EDT que nada perde para o EDP, mas tem que estar frio (pelo menos para mim), para usá-lo. Pois ele é bem intenso, basta uma borrifada, pois dura horrores na pele.

    Eu sinto como fosse um veludo, macio e confortável, um abraço apertado.

    Menina bonita....hoje tu me fez recordar bons momentos de jovem e momentos difíceis de grana curta, hahahaha. Mas recordar é viver e tu é DIVA em escrever!

    E quem dera alguém fazer um cheiro pra mim.....me sentiria com o sangue fervendo nas veias.

    Beijo bonita
    Malú

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  6. Perfume rococó, coisa finíssima. E viva o sândalo em todas as suas maneiras

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  7. Malú, friozinho pede Samsara, né? Também acho que o EDT não perde nada pro EDP. No mais, thanks!

    Dênis, e viva o sândalo!

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  8. Olha, Van, eu não conheço todos mas posso arriscar que esse é o melhor post do seu blog, pelo menos pra mim.
    Já começa com um parágrafo incrível e por uma série de razões pra mim também o ano de 1989 nunca terminará! Ano incrível...O mais saudoso ( 88 imas 89 mais! rs).
    Samsara é um luxo, um perfume muito bem elaborado e junto com L´Heure Bleu, forma o meu duo predileto da Guerlain. O vintage tem uma maciez única, provavelmente pelo uso do sândalo indiano, natural, que não é mais usado mas por algum motivo eu prefiro o atual, que tem um aspecto mais sintético mas em linhas gerais tem mais personalidade.
    Como não amar um post que cita amores como Monet, Dalí, Hendrix ( amor eterno!) e até Magal? kkkkkkkkkk
    Delícia!
    bjus

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  9. Lily, obrigada, bonita! Me divirto muito escrevendo.
    E sabe que eu sou doida pra cafungar o L´Heure? Um dia vai! rs

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  10. Van, sou de antes de 80 (deixemos para lá esse assunto, rs), mas é que estou degustando um decant de 5 "emielezinhos" de Samsara EDT para me decidir se arrisco ou não no vidrão. Orientais são meus xodós e assim estou AMANDO a evolução do cheiro e vc escreve um fato que percebi só no terceiro uso: o EDT começa manso, delicado e leve na pele, mas depois.......mostra não só as garras, mas os dentes também. Ele tem aquele "crachá" atalcado da Guerlain, que deve ser o acorde consagrado da casa, a Guerlinade. Duuuuuura na pele, é delicioso, compartilhável a meu ver e.... decidi: vou comprar, rs.. Abs.

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  11. Ubiratan, excelente compra! Samsara é dos raros incríveis que ainda existem lindamente.

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